Quantos nãos estão por trás de um sim?

  Annie Spratt/Unsplash

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Estávamos numa festa infantil, e era relativamente simples: o menino tinha finalmente conquistado a vez de brincar no totó, e nessa mesma hora a mocinha do salão ia distribuir balas e doces para as crianças. Ele olhou pro lado, chegou a dar dois passos na direção da mesa de guloseimas, mas decidiu ficar. Escolheu brincar, o que me pareceu muito autêntico, considerando inclusive que não se trata de um menino-formiga. Ele nem liga pra doce. Mas acabou o jogo, acabou a vez, e lá foi ele atrás do que restou, e aí é que está: não tinha restado nada. Voltou chorando, gesticulando, abraçando as pernas do pai e dizendo que não sabe fazer escolhas. "Eu sou muito ruim nisso, eu não consigo escolher nada na minha vidaaaa!", disse coçando o rosto molhado, sem se importar com o "público" de quase desconhecidos que acompanhava o caso. Chorou tanto que propus que fôssemos respirar um pouquinho, quem sabe no banheiro, quem sabe vamos pedir uma água pro garçom…

Quando estávamos sozinhos, ele me disse de novo que não sabe escolher, que tudo o que escolhe o faz ficar triste, que é assim em casa, na escola, na loja de brinquedo e onde mais sua veia dramática o permitiu lembrar. Era escolha dele, ele escolheu e depois achou que escolheu errado, e o tempo já não volta mais… Por um segundo ou dois me reprimi por não ter ido lá buscar o doce pra ele - mas era fila de criança, mas não custava nada, mas como eu ia imaginar que ele queria tanto, se nunca faz questão disso - quando lembrei das tais oportunidades. Eu tenho alguma chance de evitar de fato que ele precise fazer escolhas e, portanto, sofrer perdas ao longo da vida? Ficar sem uma bala é um preço bem razoável, né? Convenhamos que é uma perda bem leve quando pensamos na chance de amadurecer e entender quantas vezes dizemos não sempre que dizemos sim. Uma escolha, uma renúncia, como já dizem há tempos…

Há um tempo uma amiga, professora de crianças de seis ou sete anos, me contou o caso de um menino esperto, inteligente, participativo, que bloqueava, por assim dizer, quando podia escolher o que fazer. Ele respondia aos comandos dela com rapidez e alegria, parecia seguro e entrosado com a turma, mas quando ela propunha, por exemplo, um desenho livre, ele se enervava, dizia dolorosamente que não sabia o que queria, e quando ela reagia dizendo "qualquer coisa", ele falava "mas é difícil escolher". Eu andei seguindo bem a técnica das "escolhas direcionadas", para ajudar a diminuir o drama (deles e meu) na hora de trocar de roupa, lanchar na rua, etc, etc, mas talvez eu tenha me enfiado na frente, assim, sem querer, na tentativa de minimizar as perdas; talvez tenha sugerido demais; talvez esteja na hora de mudar de direção (afinal lá se vão seis anos) e dar ao menino a chance de entender quanto custa sua renúncia, sua inevitável renúncia.  

No banheiro do buffet infantil, interrompi a lamúria com a oferta de um abraço, que foi aceito de pronto. Depois expliquei pra ele que todas as vezes que a gente escolhe uma coisa nós estamos, ao menos naquele momento, abrindo mão de todas as outras, e que isso, embora seja meio difícil de lidar, faz a vida ficar mais gostosa. "Imagina se você pudesse comer a coxinha e o quibe ao mesmo tempo… ia ser bom?" Ele achou graça. Depois me perguntou como ele faz para saber escolher. "Como assim?" "Como eu sei o que eu quero?" Eu disse com muita certeza que ninguém o conhece melhor que ele mesmo, e que acho que na maioria das vezes ele vai saber, que é dentro dele que está a melhor escolha, mas que, se não souber qual o melhor caminho, tudo bem errar. "Mas aí eu fico triste", ele protestou, quase de volta pro choro. "Mas tudo bem ficar triste também. Essa tristeza vai te ensinar um pouquinho mais sobre você e, sem você perceber, vai te ajudar a fazer escolhas melhores da próxima vez." Pensou por um instante. "Mas, mãe, você sempre sabe o que você deve fazer?" "Não, claro que não." Aí esticamos um pouco mais o abraço.

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