Sua merendeira, seus direitos, seus deveres

  Anton Darius/ Unsplash

Anton Darius/ Unsplash

Li esta semana o caso do menino norte-americano que foi vítima de bullying por causa da merendeira que escolheu levar pra escola. A história dele se repete sempre, todos os dias, com muitas e muitas crianças por aí, por motivos iguais ou semelhantes, por absurdos iguais ou semelhantes, e nem sempre com aquele final feliz. Fiquei com isso na cabeça e mostrei a foto pro meu menino, seis anos de idade, sem explicar muito. Disse que o garoto tinha escolhido aquela merendeira, que tinha adorado, mas que levou pra escola e sofreu muito, foi muito maltratado pelos colegas. "Você imagina por quê?", eu perguntei. Ele olhou pra baixo e disse de pronto: "porque eles acharam que era coisa de menina". "E o que você acha disso?", eu quis saber. "Uma coisa que não tem nada ver com a vida de verdade", foi a frase que ele me disse, meio torta, mas coberta de razão.

Ainda bem que ele sabe disso, é claro, mas me chama atenção uma outra coisa: como um menino de apenas seis anos, sem dica nenhuma, sem qualquer introdução sobre o tema, olha pra uma lancheira colorida, com gatos estampados em tons de rosa, azul e roxo, e sabe, por si só, em que aspecto aquilo pode provocar constrangimento? Como ele construiu essa convicção? Por que ele carrega essa percepção, aos seis anos de idade, mesmo fazendo parte de uma família que se preocupa, todos os dias, em derrubar esse tipo de limitação? Se ele sabe disso, é por culpa nossa, é porque essa ideia chega pra ele, sempre, todos os dias, por meio dos desenhos que ele assiste, das imagens que ele vê na rua, das conversas que ele tem na escola, muitas vezes com meninos e meninas da idade dele - cinco, seis anos de idade, prontos pra repetir esse discurso, o discurso que eles, claro, ouvem de nós, adultos. Não precisa ser uma informação direta, muitas vezes é de leve, sutil, a gente nem percebe, a gente não faz por querer.

Depois que eu expliquei pra ele as razões que me fizeram mostrar a foto - "eu quero que você saiba que você tem o direito de gostar de qualquer merendeira e, principalmente, que saiba que não tem o direito de fazer piada ou tratar com desrespeito a escolha dos outros" - ele incluiu na conversa um fato do qual eu nem lembrava mais (mas ele lembrava, ok?). "Igual o moço da loja de colchas, mãe." O que tem ele? "Lembra que ele te mostrou duas colchas e disse que as outras eram de menina?" "Ah, sim, isso, lembro. E quem é que escolhe a colcha da sua cama?" "Eu." Pois é. "Mas por que ele fala isso então?" Eu falei sobre velhos hábitos, sobre os preconceitos que muitas pessoas têm, sobre os medos que muitas pessoas têm do que é diferente delas, sobre a tendência de achar que todos os meninos são iguais e que todas as meninas são iguais, "como se a gente coubesse dentro de uma caixinha", e não sei ao certo se ele entendeu.

No fim, desconversou, saiu pra brincar. Um tempo depois, mais de uma hora depois, voltou ao assunto, disse que tinha uma pergunta. "A professora dele não viu?" Eu disse que não sabia, às vezes viu, às vezes não percebeu, às vezes as crianças só maltrataram o menino longe dela, a gente não sabe. "É por isso que é importante você pensar sobre essas coisas e ajudar os seus amigos a agir do jeito certo, mesmo longe da professora." Ele me olhou sério e disse que isso era muito difícil. Eu perguntei se ele já viu isso acontecer, ele disse que assim, igual o menino, não, mas que muitos amigos e amigas acham que meninos e meninas não podem brincar juntos, nem ter coisas iguais, e ficam falando isso toda hora. Eu sugeri que ele contasse pra eles o que pensa, que ele ajudasse os outros a ver que não precisa ser assim, e ele me respondeu com clareza: "O problema, mãe, é que o que o pai e a mãe da gente fala, a gente acha que é verdade. Então, se os pais deles não falarem, eu acho que eles não vão acreditar em mim! Você acha que vão?" "Eu acho que você precisa tentar", foi o que eu falei pra ele, murchando por dentro.

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