O menino que não dançou (e a menina que chorou)

 Liga Solidária/VisualHunt

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Não foi uma surpresa, o pequetito me avisou várias vezes ao longo das últimas semanas: "eu não vou dançar". Eu perguntava o motivo, ele dizia que não gostava da música, ou que queria ficar na escada, ou que não e não, sem explicação. Cada hora uma coisa. Eu tinha alguma expectativa de ser cisma de momento, porque é uma criança festeira, desinibida, dançarina até, mas a quadrilha chegou, ele se vestiu animadamente, negou o bigode, amou o chapéu, fomos todos até a escola, pai, mãe, irmão, vovô, vovó e etc, e ele disse não. Me disse isso serenamente, sem choro, sem drama, sem careta. Insisti um pouquinho, bem de leve, expliquei que é legal, que a turminha toda vai (que beleza de argumento, heim?), e ele me disse pela décima vez no mesmo dia: "eu não vou dançar, mãe". E fomos então, com minha frustração devidamente administrada, ver a performance dos amigos.

Cruzamos com duas ou três mães de colega no caminho, todas muito alegres, "a tia já chamou, ele não vai?" Não, ele não quer. Achamos nosso lugar na animadíssima plateia, não demorou para começar, e ele assistiu sorrindo à dança, que não durou mais que cinco minutos. Pula fogueira pra lá, céu estrelado pra cá, e meus olhos foram parar na menina de saia rosa, maria-chiquinha a postos, que chorou, e chorou sem parar. A história dela eu não sei, não me diz respeito - não sei se ela disse para alguém que não queria dançar, não sei sei se ela sabia o que queria - mas aquele choro me lembrou das inúmeras vezes que senti vontade de chorar diante de tanta gente, de tanta expectativa (alheia), de tanto desconforto. Às vezes eu chorava, às vezes eu engolia o choro, coisa muito na moda naquela época. Me lembrou do frio na barriga que eu sentia, já mais velha, quando chegava a época da dança, e eu sabia que ia começar essa história, já iam falar de ensaio, minha mãe escolheria um vestido, e eu devia dançar, eu devia participar. "Ela só está com vergonha", é o que diziam sobre a minha resistência. "Criança é assim mesmo, elas morrem de vergonha, mas na hora passa, você vai ver"... Pode ser que sim, mas vamos admitir aqui uma outra possibilidade: pode ser que seja uma escolha.

Fico olhando admirada até hoje para os que se entusiasmam verdadeiramente com essas coisas, se fantasiam, já adultos, animadamente, a cada fevereiro, junho, outubro, e talvez até dezembro. Sempre querem dançar, e arrumar o cabelo, e fazer uma maquiagem assim e assado, e estão sempre muito alegres nestas datas, que coisa boa! Eu, no meu cantinho, sigo achando que posso escolher ver de longe, curtir a curtição dos outros e, se for o caso, sentar na plateia, sabe? E ser feliz na plateia, que fique claro - que nem o pequetito (que, diga-se de passagem, pode ser que no ano que vem dance feito um bailarino)! Não é bem uma timidez, não é absolutamente falta de alegria, de entusiasmo com a vida, é uma escolha.

Quase duas horas depois da apresentação do maternal, chegou a vez da turma do primeiro ano, e o cumpadi meu filho mais velho também fez, muito seguro de si, o que queria fazer: dançou lindamente, apesar da vergonha evidente no sorriso miúdo, com direito a roda, túnel e muito jogo de cintura. No fim, aquele abraço gostoso e a pergunta cheia de dentes:  "gostou de me ver, mãe?" Amei! Aliás, amamos, eu e seu irmão...

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