Você (também) pode sentir raiva

  Sharon McCutcheon/Unsplash

Sharon McCutcheon/Unsplash

Na semana passada eu escrevi um texto sobre o direito que nossas crianças têm de sentir raiva (e outras coisinhas mais), e uma leitora me disse assim, num tom de frustração: "ah, achei que era a mãe que podia sentir raiva". Você também pode, eu me apressei em dizer… E ela só completou: "a noite aqui foi difícil... mas passa, e a gente chora porque sentiu raiva". E levanta o dedo aí quem sabe exatamente do que ela está falando! Alguém? Alguém?

Eu não questionei muito, mas sei que ela tem dois filhos, gêmeos, de pouco mais de um ano, então posso fazer algumas suposições. É bem possível que ela tenha levantado várias vezes pra acalmar um, depois o outro, talvez os dois ao mesmo tempo. É possível que eles tenham se alternado de forma a não dar a ela nem uma hora inteira de sono entre trocas de fralda, mamadeira, amor de mãe, canta musiquinha, faz um dengo e balança um pouquinho. Febre… será que tiveram febre? Pode ser que o marido dela estivesse fora, ou estivesse ali, bem do lado, e que tenha levantado também, sempre ou quase sempre, mas nem assim, por que quem dorme com essa movimentação toda dentro de casa? Pode ser que ela tenha ficado um tempão deitada meio torta, pra não puxar o braço, porque se puxar a menina acorda, e ninguém merece! E ela talvez tenha se sentido exausta, com sono, impaciente, frustrada... com raiva. Mãe, com tudo o que a maternidade traz pra gente.

A última vez que me senti assim foi… há algumas horas. Eu levantei disposta, apesar de uma véspera emocionalmente pesada, e fui levando tudo numa boa, no maior esforço pra acertar, pra não tolher, pra deixar brincar, pra cuidar com amor, pra demonstrar esse amor, inclusive, e pra fazer arroz, feijão e uma carninha. Lá pelas tantas o pequetito me disse que queria comer um tomate inteiro, "vi no ônibus mágico", e eu concordei, disse pra esperar o almoço. Ele fez que não ouviu, entrou dentro da geladeira, saiu correndo pela casa com o tomate na mão, mordeu e quando eu peguei de volta e pedi pra esperar a mamãe terminar o almoço, "faltam 15 minutos", ele achou que devia berrar, e a partir daí se negar comer, seja tomate ou qualquer outra coisa. Se negou com o prato feito, fresquinho, quentinho, e fez o que pode pra tumultuar o almoço dos demais, me lembrando mais uma vez do limite da minha paciência, dos meus limites, da minha frustração - e eu senti raiva.

Sei que ela, a raiva, não estava lá em nenhum livro, na lista de coisas que a mãe pode sentir, nem em nenhuma propaganda daquelas que me faziam imaginar o futuro antes de eu experimentar tudo isso. Não pega bem, né? A maioria de nós, aliás, como eu disse no texto da semana passada, aprende desde pequena que não é bonito sentir raiva, que pior ainda é expressar essa raiva, que a gente não deve sentir isso por ninguém… E imagina só sentir isso por um filho! Ou, pra amenizar um pouco, por uma situação corriqueira provocada por esse filho, essa criaturinha linda aí que você ama… Só que a gente sente. Talvez sinta até todo dia, dependendo da fase, e a gente não ama nem um tiquinho a menos por causa disso. Acho até que se a gente aceitar a raiva e souber, respeitosamente, colocá-la pra fora, talvez a gente ame mais.

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