Eu não gosto de almoço!

 Hannah Tasker/Unsplash

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Eu preciso falar sobre a hora do almoço. Sei que a gente provavelmente teria uma longa lista de pautas mais urgentes, indiscutivelmente mais grandiosas, dado o andar da carruagem, mas, por favor, com licença, eu preciso falar sobre a hora do almoço… Estou insistindo na hora do almoço, mas fique à vontade para substituir pelo café da manhã, se essa for a sua verdade, ok? Trata-se daquela uma hora e meia diária que começa quando você percebe que já não tem mais tempo, que precisa estar tudo pronto já já, tudo na mesa, e vai até aquele santo momento em que você nota que conseguiu! Você venceu, e as crianças estão na escola, bem em tempo, com cabelos penteados inclusive…

Entre uma coisa e outra, nos 90 longuíssimos minutos em que parece que você jamais conseguirá, há de tudo. Tem cebola queimada, tem suco ácido demais (é mole?), tem gente que não quer desligar a TV, ou guardar os brinquedos, ou interromper a pesquisa sobre catástrofes climáticas, tem gente que chora firmemente porque "não teve tempo" de arrumar a pasta da escola, e gente que não pode ir sozinha lavar as mãos no banheiro porque sonhou que tinha um gato lá. Não tem. Mas sentam-se todos à mesa, dez minutinhos de atraso, o que é uma maravilha considerando a realidade da vida, e existem muitas queixas, muitas variações repentinas de gosto. Não gosto de queijo (?), não gosto de batata (de batata?), não gosto de carne. Ainda bem que ninguém disse que não gosta de farofa, pelo menos essa verdade segue intacta: todos amam farofa.

Mas antes que o prato delicadamente montado fique vazio (uai, fica?), ainda tem muito resmungo, muita batalha. Tem um menino que sofre de "cansaço repentino à mesa", já ouviu falar? É assim: o paciente brinca, corre, dança animadamente, faz planos pra tarde, diz que quer montar não sei o quê quando chegar da escola, dá saltos de entusiasmo, faz do tênis do irmão a bola do futebol do corredor, mas sempre, somente, até as 11h39. Às 11h40, quando senta à mesa, é acometido por um cansaço que o impede de comer sozinho, talvez até de sustentar a cabeça sobre o corpo, e ele precisa deitar do lado do prato. Come com muita insistência algumas colheradas, aceita outras entregues de bandeja por um adulto que não aguenta mais, e fim. A hora de levantar da mesa coincide incrivelmente, invariavelmente, com a hora em que o cansaço se vai e ele já pode cantar animadamente e dançar a macarena ao invés de colocar a blusa de uniforme.

E enquanto isso, não se iluda, existe um pequetito. Existe um pequeno comilão que pede comida muitas e muitas vezes ao longo do dia, mas não na hora do almoço. "Não gosto de almoço", ele diz com uma voz que faria qualquer desatento acreditar que ele está passando mal. Não está. Depois de uma palestra sobre a importância das vitaminas e do respeito à comida que temos à mesa, ele topa comer, mas brinca que é um passarinho, e é preciso esperar. Ele brinca que é um passarinho comendo farofa. Eles saem então da mesa, e fazem fila pra mastigar a escova, digo, para escovar os dentes, e é aí que se inicia o debate sobre o que levar pra escola. Trata-se de um debate acalorado: muitas paixões, muitos argumentos…

Mas a gente calça o tênis, arruma os cabelos, pendura as merendeiras, checa as merendeiras penduradas, pega as pastas, as chaves, chama o elevador, epa!, volta, esquecemos os casacos, fecha a porta de novo, estamos no carro, cintos atados, 20 minutos de música e conversa boa. Chegaremos em tempo, chegamos em tempo, e amanhã tem mais. E, veja só: o caminho de casa é longo o suficiente pra eu parar de achar que não consigo, pra eu pensar que exagerei na cara fechada, que nem é tão difícil assim, pra eu lembrar daquela delícia de sorriso sujo de feijão e pensar que, talvez, na próxima, eu possa tentar não queimar a cebola.

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