Sim, você pode sentir raiva

 Arwan Sutanto/Unsplash

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O menino veio até mim logo cedo, ainda de pijama, pra dizer que não estava conseguindo cumprir o combinado - pra início de conversa, o combinado é tirar o pijama e escovar os dentes assim que levanta da cama. Me disse isso resmungando, com cara de choro, a mão na garganta e eu respondi: "tudo bem. Você tem feito isso sempre, e quem sabe hoje eu não possa ajudar você? Não precisa mais resmungar." Aceitou a ajuda, mas seguiu reclamando, dizendo que alguma coisa o estava irritando, e que ele só queria ver TV. Insisti pra que ele escovasse os dentes, colocasse uma roupa, e lembrei que antes de escolher uma atividade para curtir com o irmão ele precisava fazer o dever da escola - que deveria ser sido feito na véspera, mas que ele adiou adivinha por quê? Porque queria ver TV.

Agora ele sabia que sua própria escolha tinha complicado a situação, mas ainda assim tentou por duas, três, quatro vezes seguir o combinado. Não conseguiu. Foi se irritando mais e mais, claramente, até que eu decidi parar de sugerir que se acalmasse. Vamos tentar o contrário. Eu expliquei que aquela irritação precisava sair do corpo dele. Disse que estava lá por algum motivo, e que ele devia deixá-la vir pra fora. "Como?", ele perguntou em forma de grito. "Talvez chorando, talvez ficando quieto um pouquinho, talvez apertando uma almofada… o que você quer tentar?" "Não seeeei", ele berrou, pra me explicar que precisava gritar. Gritou, chorou, e quando o corpo foi se acalmando, menos de dois minutos depois, achou que precisava se desculpar. "Desculpa, mãe, porque eu fiquei com muita raiva". Eu disse com certeza e calma que ele não precisava pedir desculpas por ter raiva, que ele pode sentir raiva, irritação, etc, que só não pode machucar os outros - e nem a si mesmo. Quando eu terminei a frase, ele ensaiou alguma coisa como "é mesmo", esticou os braços para um abraço e chorou copiosamente, por uns 3 minutos, encostado no meu peito. Quando retomou fôlego, disse somente "obrigado, mãe".

E ele está me agradecendo por quê? Por que deixei que ele fosse humano, sentisse o que precisava sentir, sem rótulos, sem conclusões precipitadas, sem fórmula, sem idealização? Por que eu achei que o choro dele, o destempero dele, a angústia dele cabiam no nosso dia, cabiam na sua própria casa? Por que eu resisti, ao menos por hoje, à pressão por ser a mãe perfeita do menino perfeito que só faz coisa bonita? Por que eu não pedi que engolisse de qualquer jeito as emoções que ele estava sentindo e atendesse à minha expectativa de uma produtiva manhã em família? Deve ser. E o pior que é eu já devo ter feito isso, assim, sem perceber, um milhão de vezes, porque é assim que fazem comigo, certo? A gente tem uma tendência de achar que precisa ensiná-los a se controlar - e de fato, sob muitos aspectos, a gente precisa, eu sei -, mas se não for aqui, no meu colo, que ele vai poder sentir de fato essas angústias, onde será?

Aquela parecia uma "manhã perdida" no que diz respeito ao andamento da casa, ao dever da escola, à troca saudável com o irmão - que ficou assistindo tudo de camarote, mestre que é na arte do resmungo -, mas logo depois do abraço ele disse que se sentia melhor, esboçou um sorriso, tomou leite, e meia-hora depois sentou pra fazer o dever da escola. Não precisou chorar mais, nem resmungou, e até adiantou um atividade que seria só pra próxima semana. Lemos juntos o livro da tartaruga que não gostava de ter um casco, mas aí um dia chegou a chuva e ela descobriu que cada parte do seu corpo tinha um papel e que era o conjunto, incluindo o casco, que seria capaz de fazê-la feliz.

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