Chora, e chora sempre que precisar

 Frisno via VisualHunt/CC BY-NC

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Eu achei que essa expressão, absurda que é, tinha caído em desuso. Não caiu. Eu ouvi há poucos dias, na porta de uma das salas da escola que meus filhos frequentam, dita em alto e bom som neste momento tão delicado de adaptação: “Engole o choro!”. Isso me soa tão sem sentido que eu achei até que era alguma brincadeira (idiota), mas a mãe repetiu duas vezes, pra tirar a minha dúvida, enquanto tentava fazer com que a filha lhe soltasse o pescoço. “Engole o choro”, ela dizia, séria, para um bebê de pouco mais de um ano. Um ano e meio, talvez. A criança, que provavelmente não compreende o significado desta violência mas sente os efeitos dela, foi vermelha, com o rosto todo molhado e sem alternativa, pro colo da professora, visivelmente desconfortável com a situação. Não vi quanto tempo demorou até que o bebê conseguisse “engolir”. 

Famílias distintas educam de forma distinta, mas não há corrente ou linha de pensamento que possa, de alguma forma, me convencer de que tolher a expressão dos sentimentos, inclusive os sentimentos ruins, possa ser uma alternativa razoável. Assim como aquela mãe, eu quero encorajar meus filhos para que enfrentem de cabeça erguida o que vier pela frente e, quase sempre, minha reação diante do choro também é agir para que ele cesse. Mas pelo caminho inverso: põe pra fora, meu amor! Tá triste? Com raiva? Irritado? Frustrado? Exausto? Tomou um susto? Tá com medo? Dor? Saudade? Chora, reclama e dá um abraço, porque isso ajuda a cuidar destes sentimentos aí, que me importam muito mais do que o choro. 

Chorar faz parte do processo da criança para lidar com seus dilemas e, invariavelmente, se ela se sente acolhida no choro, ela se mostra grata e mais acessível depois dele - que dificilmente dura muito. Dura o tempo necessário para que o sentimento vá ficando mais claro, mais fácil de ser compreendido e, em alguns casos, até superado. Choro de criança não é como coceira, que quanto mais você se liberta, mais intensa fica a questão. Não se preocupe, a tendência, na verdade, é o contrário. Manha, claro, exige outros cuidados, mas é difícil imaginar, neste contexto aí, considerando a circunstância e a idade da criança, que se trate de um caso de manha. 

Temos todos, uns mais outros menos, dificuldade de lidar com as lágrimas, e essa não é a primeira vez que falo sobre isso…Fui dia desses fazer um exame de sangue e, enquanto esperava minha vez, fiquei ouvindo uma mulher tentar conter o choro de um menino, de uns 2 ou 3 anos. “Não precisa disso, fulano! Se não chorar tem lanchinho depois…”, tentava ela, enquanto o menino tinha o braço apertado e era picado por uma agulha que assusta e dá vontade de chorar em muito adulto. Ainda me lembro da sensação, quando criança, de tentar engolir o choro - que se hoje tem pouco espaço, era ainda mais combatido 30 anos atrás. Em alguns casos, a missão de não chorar era mais trabalhosa e danosa, psicologicamente falando, do que o problema em si. O que precisa ficar claro é que combater o sintoma - e o choro, claro, é sinal de alguma outra coisa - resolve o problema do adulto, e não o da criança. 

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