Ela merece mais

nix|photo via Visualhunt/CC BY-NC-ND

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Corri dia desses para abraçar e festejar uma prima que está grávida e vai ter gêmeos. Desde que soube da notícia fiquei rindo sozinha, imaginando a lindeza disso, e lá pelas tantas, não me segurei e recorri ao clichê. “Eu sei que você já ouviu isso mil vezes nos últimos dias, mas preciso falar também: você vai viver uma experiência maravilhosa, prima!” Para minha surpresa, a resposta dela, num tom de alívio, foi “nossa, obrigada. Não ouvi isso mil vezes não. Até agora o que eu ouço é ‘gêmeos? Ih, tá f.’” É claro que eu sei o que as pessoas querem dizer quando usam essa palavra. Com dois meninos pequenos em casa, imagino o rojão que é cuidar de dois recém-nascidos. Mas será que ela não merece algo mais que essa previsão?

Minha prima não escolheu ter dois bebês ao mesmo tempo, mas o que ela ouve por aí é mais ou menos parecido com o que escuta uma mãe que escolhe ter um terceiro filho, ou ainda um segundo bem perto do primeiro. “Nossa, que louca! Vai ralar, heim?!”, fazem questão de avisar, como se já não bastasse a ralação em si… Nós, mães e pais, estamos construindo um movimento importante, eu sei, de derrubada do ideal da maternidade perfeita, que tanto mal faz pra tanta gente. Também sei que os extremos têm seu papel quando se precisa quebrar paradigmas. Estamos aprendendo a lidar de maneira mais natural, honesta e justa com nossas limitações - eu mesma já dei meus pitacos neste sentido, mais de uma vez, e muito ainda há de ser dito. Que essa luta não nos tire, porém, o encantamento da maternidade.

Quando der à luz seus dois bebês, minha prima viverá algo muito maior e mais potente do que fraldas sujas, noites mal dormidas e um cansaço que parece que vai matar. Ela viverá uma experiência de transformação ímpar, de uma riqueza indescritível e, aliás, fará isso de uma forma muito privilegiada: cuidando de dois irmãos que chegaram juntos ao mundo. Claro que esta experiência - como, aliás, são todas as experiências verdadeiramente ricas - tem diversas nuances e inclui sentimentos nem sempre confortáveis, e é importante que ela saiba disso. Mas considerando que os desafios da maternidade afetam de forma distinta a cada uma de nós, não nos cabe lhe jogar tudo isso goela abaixo. 

Todos temos bem mais a dizer pra quem vai encarar - seja pela primeira vez ou em mais uma jornada - o desafio de cuidar. Esse esforço talvez soe como mera gentileza, à primeira vista, mas pode fazer um grande bem também à nós, na medida em que nos ajuda a lembrar da longa lista de motivos que temos pra ser feliz a cada dia.

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