Hoje te amo mais

GabrielaP93 via Visualhunt

GabrielaP93 via Visualhunt

“É melhor eu dar um jeito de ligar”, era o meu pensamento mais constante agora há pouco, sentada no chão gelado do quarto deles, entre uma cama e outra, com as mãos esticadas uma pra cada lado e a cabeça tombada pra direita, porque o pequetito quer a minha orelha bem pertinho dele. “Ou isso ou fazemos uma vasectomia, ou nunca mais nos encostamos, pra não correr nenhum risco, pra eu não me deixar levar por uma emoção momentânea, pra eu não achar que sempre cabe mais um”, eu dizia pra mim mesma, sem achar graça da minha própria piadinha extremada, respirando fundo, exausta, rezando pra que eles sossegassem o facho e se dessem uma chance de pegar no sono.

Terminaram as férias e agora somos só nós três no terceiro turno do dia, quase sempre. Hoje foi tudo típico. Chegaram animados, lanchamos, tomaram banho, pediram pra ver desenho, “ah, não”, “ah, por favor, mãe”, “só se for calminho”, mas sabe como é, eles se entusiasmam com o calminho, se abraçam, se beijam, quase caem, querem mais um, eu cedo, eu sei que faz mal mas eu cedo, eles rolam na cama, gargalham, caem, choram, querem mais desenho, “agora chega”, “agora eu quero leite!”... Que tipo de mãe nega leite? Voltamos pra cozinha, tomaram tudo alegremente, sem nem ligar pro relógio, pegaram um bloquinho de notas na mesa “pra fazer um desenho”... “Desenho? Agora?” “Pra você, mãe…” Que tipo de mãe nega um desenho? “Ok, ok, mas rapidinho”... Dentes de novo, xixi de novo, abraços de novo, cama, historinha, e lá estou então com os braços esticados… Dá dormência, sabia?

E me ocorre que talvez não seja pra mim, que eu talvez tenha me superestimado quando pensei que levaria numa boa um batente desses, e me arrepio só de pensar no trabalho que dá um bebê, na abdicação, na abdicação que parece que não cessa e vai se transformando na medida em que a criança cresce. E se passam 20 minutos, meia hora, eles vão silenciando, eu experimento pensar em outra coisa, me distraio, e eles dormem. Eu escuto a respiração de cada um, ritmos diferentes, inconfundíveis, música para os meus ouvidos… me demoro ali uns dois minutos pra ter certeza de que dormiram e vejo que a minha pressa foi embora. Cubro cada um, beijo as bochechas, cheiro os cabelos e, finalmente, saio do quarto - pelo menos uma hora depois do que planejei. E saio amando mais que ontem, querendo mais que ontem.

Leia também: