Mãe, vai demorar?

 Julien Sanine via VisualHunt.com

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No meio de uma praça de alimentação lotada, enquanto eu tentava equilibrar minha bolsa, duas bandejas, e mais alguma sacolas, o menino me perguntou: “mãe, quando as crianças que estão aqui forem adultas, os adultos serão velhos, não é? E os velhos já vão ter morrido, né?”. Sentei pensando no que responder, “sim, é isso”, o que mais eu podia dizer?, mas ele completou antes de eu abrir a boca: “mas vai demorar? Porque eu gosto de ser criança, quero ter tempo.” Respirei fundo, peguei daí o gancho e disse, ciente das controvérsias todas, o que eu acho que cabe dizer pra uma criança de cinco anos: “você vai ter tempo. Você ainda será criança por muito tempo, e o que você precisa fazer é curtir o dia de hoje, ok?” “Sim.”
 
Fiquei meio impressionada com a fala dele. Não que ele tenha me dito alguma coisa que eu não sei, imagina, taí uma verdade que eu conheço há bastante tempo. Mas ser convidada assim, sem mais nem menos, a pensar nisso, no futuro, no que virá, no que não virá, na tal “astronave que tentamos pilotar”, assim, no meio da multidão, olhando nos olhinhos de um menino que ainda vai entender exatamente como isso tudo funciona… nossa, não é simples… O que será que vai ser? Que adulto ele vai se tornar? E o irmão, quando for bem maior que eu… quem ele será? Será que vão construir a história de felicidade que eu sonho pra eles? E o que é que eles vão pensar quando alguém disser: “e a sua mãe?”
 
Estou tentando colocar em prática a tarefa que eu dei pra ele, de focar no presente. Me lembro que na adolescência eu não via a hora de ficar adulta, e se me perguntar hoje não vou saber dizer por quê. Tinha algum desconforto naquela condição, uma ansiedade que eu acho que é meio típica do ser humano mesmo, aposto que é assim em 90% dos casos. Não sei quando começou, mas agora, a essa altura do campeonato, estou aqui boquiaberta com a passagem do tempo, penando pra pensar hoje só no que diz respeito ao presente, e não somente por mim, mas também por eles. Tudo na sua hora, no ritmo que é, não tem pressa pra crescer (pra ler ou escrever, pra contar até não sei quanto, pra decorar a senha que desbloqueia o smartphone…). Tudo isso virá.
 
Ainda na praça de alimentação, propus uma brincadeira. “Vamos ver, aqui e agora, o que é que tem de mais legal, o que faz você gostar de ser criança?” Ele riu, e iniciou a lista. “Esse macarrão (hahaha), o papai, você, meu irmão, meu moletom do homem aranha, minha mochila, o suco, o filme do…” “Não! O filme a gente vai ver depois. Só vale coisa de agora!” “Ah, então, então… o amor então”.

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