A mãe da vez

Nothing Project via Visualhunt  

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Faz dez anos que fui visitar aquela moça - um pouco mais que colega, não exatamente, ainda, uma amiga. Tínhamos uma intimidade mediana, naquele ponto em que ainda existe uma cerimônia, embora a gente tente fingir que não. Saí da casa dela grata pela hospitalidade e, do alto de minha absoluta inexperiência, pasma com o manda e desmanda do menino dela. Uma gracinha de dois ou três anos que, na hora do lanche, queria escolher onde iam se sentar cada um dos adultos, e chorava, e berrava, se alguém ousasse fazer diferente. “Que horror”, pensei comigo, enquanto via a mãe ceder, muito sem graça, depois de duas ou três tentativas desesperançosas de retomar pra ela o controle da situação. “Pois eu nunca que ia deixar isso acontecer. Onde já se viu uma criança fazer uma coisa dessas com a mãe, ainda mais na frente dos outros?”

Pois bem, chegou a minha vez. A vida se encarregou de me dar, aqui e agora, uma cena igualzinha, pra eu aprender. O pequetito, dois anos e meio, aponta pras cadeiras cheio de convicção, vai dizendo quem senta onde, e dá um berro se eu sento “na cadeira do papai”. Tenho, e faço questão de lembrar, a opção de comprar a briga, coisa que faço eventualmente, mas aí já se foi o almoço, já se foi o meu apetite, haja tempo pra esperar ele resolver então comer, haja serenidade para pedir, em voz baixa, que ele pare de gritar. É, enfim, coisa que não se faz na frente das visitas. Com a casa cheia, francamente, é melhor sentar onde ele quer, comer minha comida ainda quentinha, e jurar em silêncio que teremos uma boa conversa depois…

Outro dia estávamos no mercado e ele, o pequetito, empacou perto dos biscoitos. Eu chamei, pedi, ele não veio. Tinha uma moça perto, novinha, rabinho de ginástica, biscoitinho fitness na mão, sorrindo pra ele. Eu chamei de novo, ele continuou ali, resmungando, dizendo não, tirando pacotes da prateleira e pondo no chão, e eu com o carrinho lotado, pouco tempo, muita coisa pra fazer… Mais uma tentativa frustrada, apesar do uso das técnicas de firmeza e afeto, e vi que não tinha jeito. Deixei o carrinho num canto, andei até ele, guardei tudo o que ele tinha espalhado, peguei no colo sem sorrir, não disse nada, e a moça: “se você chamar ele não vai?” Pensei em dizer que nenhuma criança vai, mas isso não seria cientificamente uma verdade, então disse “não”. Pensei em me defender, explicar que ele às vezes vem, mas isso seria inútil, então fui pro caixa. Tem problema não. Chegou a minha vez, da mesma maneira que, quem sabe, vai chegar a vez daquela moça…

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