Abaixo a mentirinha

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Existe um hábito antigo, que pra muita gente é quase imperceptível, que é o de contar mentira pra criança. Mentirinha boba, coisa pequena… Uma tentação. Funciona como um atalho, pra não ter que explicar demais, sabe? Por exemplo: ela quer mais biscoito. Você não quer dar, porque ela já comeu o suficiente e, não demora muito, chega a hora do jantar. Aí, ao invés de explicar isso pra ela e lidar com o protesto, que pode virar choro, que pode virar birra, que parece até uma guerra, você diz que acabou. Que que tem? Assim, de cara, tem duas coisas: primeiro que mentirinha gera mentirona. Cedo ou tarde, ela vai sacar que aquele(s) biscoito(s) não tinha(m) acabado nada e, ora, se a mamãe (ou o papai, ou a vovó) manipula os fatos pra que eu faça o que ela quer, então eu também posso, né? E, de quebra, perdemos uma boa oportunidade de aprender sobre regras, limites, enfim... educação.

Tem gente que diz que não dá pra fugir dessa. Já ouvi, mais de uma vez, que “toda mãe fala mentira”. É? Eu ficava ali caladinha, achando aquela conversa estranha, pensando que eu talvez não estivesse entendendo direito, ou ainda fosse inocente demais em matéria de maternidade, mas andei ouvindo isso de novo recentemente, mais de uma vez, e resolvi abrir a boca. Aqui estou eu, a “louca da verdade”, seguindo firme e forte na contracorrente. Já se vão quase cinco anos. Sem mentira. Se, eventualmente, a verdade nua e crua for inadequada para o momento, então eu abrevio, conto a parte possível, explico que é “coisa de adulto”, mas não minto.

É difícil porque essa é uma questão cultural. Meu marido conta que cresceu ouvindo de uma tia que não podia ir lá do outro lado da casa “porque lá tem bicho”. Muito mais fácil do que explicar que “ali não é lugar de criança ir sozinha e que eu não quero ir lá com você agora”. Também posso citar a TV que “quebrou” e não passa mais desenho e o carrinho cuja pilha acabou de repente. É só olhar em volta pra ver um monte de gente que, sem qualquer maldade, tende a fazer isso o tempo todo, até com o filho dos outros. Pois eu, um pouco sem graça, desminto na hora. “Ô neném, quebrou o balanço, agora só amanhã”, disse uma desconhecida outro dia no parquinho, quando percebeu a resistência do meu pequetito para ir embora. Eu sorri, agachei e disse baixinho pra ele: “está na hora de ir pra casa. O balanço está firme e forte, ele espera a gente voltar outro dia”.

Minha prova de fogo foi há cerca de dois meses, quando combinei com o mais velho de irmos só eu e ele ao cinema. Ele adorou a ideia, curtiu os preparativos, saímos de casa, cantamos no carro, estacionamos, chegamos na bilheteria e… não tinha sessão. “Por que, mãe?”, ele me perguntou com o choro já vindo aos olhos. “Porque eu errei filho. Mamãe olhou o horário no lugar errado”, eu disse, resistindo à tentação de escapar da culpa. Choro já posto, abraço apertado, e em pouco tempo estávamos em busca da solução.

No fim de semana passou pela minha timeline um post de uma página destas grandes, com muitas mil curtidas, que trazia um ranking das “mentiras mais contadas pelos pais” e um convite para que os leitores fizessem suas listas nos comentários. De arrepiar. O ranking era uma tradução nada convincente de algum produto enlatado (dava para ver pelo tom que não era originalmente brasileiro), cheio de verdadeiros absurdos citados ali como coisa engraçada. A parte boa foi ler os (poucos) comentários. Não entramos na onda. Não estou sozinha.

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Em tempo: mentira é diferente de fantasia. A mentira da qual eu falo tem o intuito de enganar a criança, de encurtar o assunto, e é fruto da preguiça, da fraqueza do adulto. Fantasia tem a função de entreter, de envolver, de dar asas. Andam em sentidos absolutamente contrários.

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