O menino e o poder da palavra

 Horrigans via VisualHunt

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Nem só de receitas de lanchinhos saudáveis e de dicas de amamentação vive um curso sobre alimentação infantil. Estava eu dia desses acompanhada de outras mães em busca de informação quando Fabiana, a instrutora, trouxe pro debate a importância do discurso, especialmente o materno. Ela nos encorajava a usar a palavra, o nome das coisas, como instrumento de intimidade e otimismo também na hora da comida. Embora eu já tenha lido (e recomendado aqui) o livro de Laura Gutman, num contexto completamente diferente, foi ouvindo Fabiana falar sobre o peso que tem a palavra que, de repente, fez sentido pra mim uma cena que tenho visto com frequência: o pequetito, quanto mais eu sugiro que coma, mais ele se dedica a repetir o nome dos alimentos. “Arroiz, jão, caninha, cenora, bócolis”, ele vai dizendo - o que, apesar da fofura, provoca em mim inúmeros pedidos para que ele “pare de falar e vá ao que interessa”... 

No dia seguinte ao curso, com aquela sugestão na cabeça, experimentei ouví-lo e, ao invés de pedir que parasse e resolvesse logo a questão alimentícia, entrei no jogo dele. Fomos citando os nomes que ele queria, e aos poucos fui até incluindo umas palavras novas, como cebola e salsinha, que ele se esforçava para repetir do jeito que era possível. Em dois minutos, era como se fosse íntimo da salsinha, e fazia o que podia pra, ele mesmo, levá-la à boca. Levamos alguns minutos a mais, mas a experiência do almoço já não era, claramente, só comida. Estávamos em busca de intimidade com o mundo. Era aí que ele queria chegar, e eu, presa nos meus modelos da vida adulta, demorei a entender.

Hoje cedo eu precisei levá-lo comigo ao supermercado, e fomos percorrendo as ruas do bairro seguindo essa mesma lógica. “Casa, carro, bibi!, rua, pedinha, gade, muro… Mamãe!” Mamãe? A cada vez que eu me colocava no caminho dele pra que ele me nominasse, a gargalhada vinha mais alta. E ele foi desfrutando daquela rua e daquele passeio como nunca - com a propriedade de quem conhece o espaço e se reconhece parte dele. O livro que eu citei lá em cima nos alerta, principalmente, para os riscos da palavra mal usada, para o peso que rótulos e papéis que criamos podem ter no futuro de uma criança - reflexão que é imprescindível. Mas temos, especialmente nos primeiros anos de vida de nossos filhos, a chance de testemunhar o outro lado da moeda, que é tão sutil quanto natural: o poder que o discurso tem de de acalmar, de encorajar, de potencializar a descoberta do mundo.

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