O rótulo não serve pra eles

 Ryan McGuire/Gratisography

Ryan McGuire/Gratisography

Fiquei outro dia ouvindo, porque não tinha outro jeito, a conversa de duas mães no parquinho. Uma delas desabafava com a outra, contando que o filho vinha sendo prejudicado nas relaçōes com os amiguinhos "porque ele é muito bonzinho". Até entendi o drama dela, mas queria saber: "muito bonzinho" quer dizer o que? E mais: quem não é "muito bonzinho" é o que? 

Além da inadequação que eu vejo em se classificar crianças de 2 ou 3 anos entre bonzinhos, espertos, levados, terríveis, ou não sei o que mais, aquela conversa me lembrou da importância de nos atentarmos aos rótulos que, sem ver, criamos para nossos filhos. A teoria em torno do discurso materno (muito bem apresentada por Laura Gutman no livro "O poder do discurso materno") chama atenção para as consequências do que dizemos a eles, especialmente do que dizemos sobre eles. Carregamos, todos nós, ao longo da vida, os reflexos do que ouvimos a nosso respeito na infância. O que me disseram, seja positivo ou negativo, está aqui comigo, e é muito provável que o que você ouviu também permeie, de alguma forma, sua versão adulta.

O rótulo, além de injusto, é limitador. Voltando ao caso do bonzinho, é fácil enxergar que esse papel - de bonzinho - não é bom nem pra quem o tem e nem pra quem fica do outro lado. Mas deixando pra lá os desafios de quem cresce ouvindo que “fulano é bonzinho”, imagine crescer com a "responsa" de ser “o bonzinho”. Isso significa não decepcionar, não se enervar, não sair da linha. É muita pressão. Nem preciso dizer que ninguém é bonzinho o tempo todo… Obviamente, atitudes do bem são louváveis, mas não é essa a questão aqui. A repetição constante desses termos - seja bonzinho, danado, da pá virada ou brilhante - traz consigo o perigo do condicionamento, criando barreiras nem sempre fáceis de se derrubar.

O rótulo não serve pra eles. Talvez nos sirva, porque, de fato, tudo o que está classificado se torna mais fácil de lidar. Desde que nasce um bebê nos vemos impelidos a dizer "como que ele é", e isso quase sempre é feito de maneira simplista. A tentação é ainda maior pra quem tem mais de um filho, porque o rótulo serve pra alimentar outra atitude confortável - e de efeito questionável - que é a comparação. Já me vi aqui respondendo de pronto às muitas perguntas sobre como é o meu caçula, e o pequenino, sem demora, trata de me desmentir. Deve estar com o instinto de proteção apurado.

Leia também: