Esse sou eu, mãe

  Markus Spiske/Unsplash

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Eu ainda estava no chuveiro, naquela torcida para que me fosse permitido terminar de enxaguar meu cabelo, quando vi a porta se mexendo. É o vento? Não parece. Meio segundo para que eu tentasse adivinhar qual dos dois era, até que vi a mãozinha gordinha, com as pontas das unhas quebradas, empurrando a maçaneta de volta, com passinhos lentos, modo soneca, xixi urgente com os olhinhos quase fechados. Meu pequetito! Abri o box, sorri, olho no olho, e ele sorriu de volta, eu já podia imaginar o bafinho do sorriso. E ele não disse nada. Xixi feito, saiu do banheiro, subiu na minha cama, e só depois que eu saí (será que vou conseguir pentear o cabelo?) é que nos falamos. "Bom dia, mamãe! Eu já acordei." Respondi com beijos e apertos, e ele depois de satisfeito disse: "vamos lanchar, eu vou te mostrar uma coisa".

No dia anterior eu tinha estado na escola dele pra uma conversa sobre o comportamento típico dos 3 anos - que não me parece muito diferente do que eu conheço como sendo dos 2 anos. Anda se enervando, jogando coisas, indo da paz à guerra em segundos, e a guerra frequentemente é com ele mesmo - muito choro, uma irritação que ele, claro, não explica, e a gente nem sempre consegue entender. Eu pedi paciência, a escola disse que tem, claro, "quase todas as crianças apresentam coisas deste tipo", e eu voltei pra casa pensando no que fazer. Não sei. Lembrei de já ter ouvido sobre o fantástico desenvolvimento do cérebro da criança, que acontece num ritmo aceleradíssimo e, claro, exige muito deles. Uma vez alguém me disse que é comum a criança passar por crises, uma sequência de dias ruins, antes de ter picos de aprendizado, antes de concluir uma etapa x ou y do entendimento dela sobre o mundo. E quantos picos eles vivem até os três anos, né?

Na cozinha, eu esquentei o leite, e ele me perguntou como é o S. S? "Sim, é esse que eu não sei". Desenhei num pedaço de papel, "uma cobrinha, tá vendo?", e enquanto eu pegava pão, manteiga, ele fez todo o resto em volta e me mostrou. "Meu nome, mãe. Esse sou eu." Heim? Beijei, sorri, ri de surpresa e nervoso, e ele pegou outro papel, "vou escrever Mônica pra você." Fez sem acento, com o n espelhado, traços desproporcionais, mas eu nem podia imaginar que ele sabia desenhar uma letra sequer, quem diria um conjunto de letras, alguma coisa que fizesse sentido. "Quem te ensinou?" "Eu! Mas meu irmão me ajudou. Posso acordar ele?"

Preservei o sono do irmão por mais um tempo, até que ele levantou e eu mostrei os escritos. "É, ele tá aprendendo", disse o menino com um sorriso corriqueiro, já propondo uma sequência de atividades. Montaram personagens, se fantasiaram (todo dia), fizeram lutinha na cama e no corredor (oh, céus!), fizeram dentes de massinha e coloriram mais páginas no livro de atividades dos dinossauros. Neste meio tempo, o pequetito chorou porque não achou o cabelo que queria pro boneco, porque a blusa da fantasia sumiu, porque a mamãe está no telefone, porque o irmão fez isso ou, sei lá, fez aquilo, porque quebrou a ponta do lápis, porque ele não sabe colorir "o espeto do dinossauro". Chorou porque sim, chorou porque não, na sua intensa manhã na escola da vida. Chorou porque, como diz o irmão, está aprendendo.

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