Como é que a gente sabe?

 Cordel Foto Registro

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Me perguntou outro dia um repórter: “como a gente sabe se está funcionando? Existe um parâmetro para avaliar se estamos ou não cumprindo nosso papel quando se trata da educação de nossos filhos?” Ainda bem que não era ao vivo. Eu nunca tinha pensado a fundo sobre isso, e se tivesse que responder de pronto certamente meteria os pés pelas mãos, me enrolaria e/ou não diria nada, ainda que ficasse falando igual a um papagaio. Por princípio, não, não existe. Eu não conheço, pelo menos. Só a ideia de parâmetro, de fórmula, de regra contida nesta questão já me faz achar que não se aplica à maternidade, e que eu não posso saber o que funciona para outra mãe.

Olhando só pro meu umbigo, também passo dias e dias sem saber… Na semana passada achei que alguma coisa ia muito mal porque soube que o menino empurrou um coleguinha na escola. Empurrou deliberadamente. Depois fiquei tentando entender onde estou errando, porque o pequetito não me obedece. Em algum momento ele decide fazer o que eu estou pedindo há tempos, é verdade, mas decide no tempo dele, como bem entende - ainda não sei o que preciso fazer para que ele atenda imediatamente a um pedido meu, e que o faça sem mostrar a língua pra mim (quem ensinou isso pra ele?), sem gritar “eu não sou mais seu amigoooo”. Mas passam-se alguns minutos, ou chega uma boa noite de sono, e eu volto a acreditar no que estou fazendo. “E com que argumento?”, eu perguntava pra mim mesma enquanto tentava responder à pergunta do repórter. Duas coisas me veem à cabeça.

Eles são crianças alegres? Sorriem, se divertem, mostram paixão pela vida que têm? Têm prazer, se agitam eufóricos diante de uma novidade? Têm interesse pelas novidades? Têm interesse por um dia de sol? Sim, sim, sim! Não estou falando da alegria de uma grande viagem, um presente especial, uma promessa de que papai noel vai caprichar. Estou falando das pequenas alegrias: da alegria de acordar na casa deles, de tomar café (e fazer bagunça) com o irmão, de ver a mamãe preparando o ovo mexido, de redescobrir ou reinventar seus brinquedos, de ir pra escola ver os amigos, de contar as novidades da escola, de cantar alto no carro (e tudo errado) aquela música que a mamãe adora, de ouvir o barulho da porta e já se preparar pro abraço… estou falando das alegrias mais possíveis, das alegrias que são consequência de um ambiente de amor, daquelas que, juntas, nos fazem pessoas genuinamente felizes…

E, outra coisa: eles têm disponibilidade para o mundo? Se interessam pelos outros, se importam com os outros? Querem brincar com outras crianças, querem ajudar adultos e crianças? Querem entender como as coisas funcionam e por que algumas coisas não funcionam? Querem escutar as histórias que o motorista do ônibus conta? Gostam de fazer os outros sorrirem? Sim, que bom! Isso significa que estão crescendo cidadãos, atentos ao que acontece fora de casa e não apenas aqui, no nosso mundinho. Significa que se importam com o que acontece lá fora e com quem está lá fora. “Nenhum homem é uma ilha”, disse o poeta, e nem toda aquela alegria ali há de ser suficiente se eles não entenderem isso.

Se são felizes e se se mantêm interessados pelo mundo, então temos aí, eu aposto, os elementos cruciais para cuidar dos problemas. Sim, os problemas gerados por todos os erros que a gente comete (mesmo matando um leão por dia pra não errar) e que às vezes, por causa das intempéries da vida, vão se acumulando e se transformando em grandes desafios pra eles e, sempre, pra nós.

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