A autonomia que ele quer (e a que eu posso dar)

 Mait Jüriado via Visual hunt/CC BY-NC-SA

Mait Jüriado via Visual hunt/CC BY-NC-SA

Não posso dizer que aconteceu exatamente de uma hora pra outra, mas agora não tem mais volta: ele quer comer sozinho. Pouco antes de completar um ano e meio, meu bebê decidiu que ninguém mais põe a mão na colher dele, pelo menos não sem que ele proteste em alto e bom som. É fofo, é simbólico, é rico, e é de enlouquecer a mãe, pelo menos por alguns dias. Como ele não nasceu sabendo, antes que a gente possa comemorar esse importante marco do desenvolvimento dele, temos uma boa estrada pra percorrer. Estamos falando de dias e mais dias de muita sujeira, muita comida jogada fora e, o mais difícil de lidar: nervos à flor da pele. 

Estamos, eu e ele, no nosso limite. Ele testando sua força de vontade, sua autonomia, sua capacidade de superação, seja motora ou mental. E eu torcendo por ele no limite da minha paciência e, claro, do relógio - afinal, temos hora pra vencer a etapa do almoço. Não é fácil para nenhuma das partes, e alguns minutos depois de começar a colocar a comida boca adentro, ele se irrita porque também cai fora, cai na barriga dele, cai da colher no meio do caminho, suja tudo, ele decide que só quer tomate, e no prato não tem mais tomate. É nessa hora que eu tento, ofereço ajuda, ele nega, eu insisto, ele chora, e o almoço acaba ali, com mais feijão no chão que no estômago. Quase nada no estômago. 

Eu vou catando, limpando o rosto dele, tentando escovar os dentes (coisa que ele também quer fazer por conta própria, claro) imaginando quantas vezes ele e o irmão ainda vão querer fazer sozinhos alguma coisa para a qual eu acho que não estão prontos. E a mim, cabe o quê? Cabe dar asas, é o que me vem na ponta da língua, mas também cabe proteger e, o mais difícil, achar o equilíbrio entre essas duas tarefas, considerando ainda os meus limites e o que eu posso verdadeiramente oferecer. Não tem fórmula. 

No dia seguinte, entre a ressaca dos almoços passados e a expectativa por mais um que já vai chegar, me ocorreu a história do tomatinho que queria ficar agarradinho no arroz e no feijão pra levar muitas vitaminas pro bebê. Queria tanto que até pediu ajuda pra mamãe do menino, porque todo mundo teimava em escorregar da colher. Na hora do almoço, a despeito das orientações para que não se misture comida e diversão, até musiquinha o tomate fez, o que foi motivo pra que o menino achasse graça na ajuda e ganhasse fôlego pra tentar mais uma vez, sozinho. Umas dez colheradas foram certeiras. O suficiente por hoje.

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