O menino, o biscoito e os terrible two

 Demandaj via Visual Hunt

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Olhando assim, era um biscoito como outro qualquer. Mas enquanto eu olhava a boquinha dele mordiscando, finalmente, o famigerado biscoito, eu me dividia entre a sensação de vitória e a pulga atrás da orelha: gente, mas o que, de fato, acontece? Dez minutos antes estávamos tensos e suados por causa do biscoito, que estava à mão desde a primeira manifestação de desejo, mas que já tinha sido responsável por grandes emoções. Por causa do biscoito (ainda que essa seja uma visão superficial), ele já tinha gritado, berrado, se debatido na cadeira, implorado para descer, implorado para subir, repetido mil vezes o próprio nome, me chamado, me mandado embora e chorado. Chorado muito. Eu fui insistindo, com a calma por um fio, e depois de algum tempo - depois de ter atirado uns três biscoitos no chão e chorado porque “caiu o biscoito” - ele finalmente o colocou na boca. Comeu. E foi se acalmando, e pedindo mais um, e mais um, e comeu seis. Sorriu. 

Esse não é meu primeiro “terrible two”. Meu filho mais velho, três anos atrás, já tinha me levado à primeira googada no assunto, mas é sempre bom se atualizar. Vi recentemente que tem gente que não gosta da expressão, porque é ruim sugerir que uma criança seja terrível. Concordo,  mas vamos pensar dessa forma: terrível não é a criança e, sim, a fase. E que fase! É uma daquelas coisas que, se me contassem antes, eu não acreditaria. “Ah, fala sério! Lá perto dois anos alguma coisa acontece e a criança se enerva do nada, chora, esgoela assim, sem mais nem menos? Claro que tem outra explicação, você que não sacou, minha filha... ” Não tem não. Acredito agora. 

Ontem enfrentei uma crise dessas na hora do almoço, e não tem jeito de confundir. Ele não se negava a comer porque não tinha fome, ou porque estava com dor de barriga, ou de garganta, ou porque não gostava do tempero. Ele berrava se eu aproximava o prato e berrava de novo se eu o tirasse de seu alcance. E, de repente (meia hora depois), almoçou. “Delícia, mamãe”. Me lembro da sensação de alívio que tive, lá ainda com o mais velho, quando depois de desabafar com uma amiga sobre a estranha mudança de tom do menino, “que sempre foi calminho”, ela me disse: “é assim mesmo, faz parte do desenvolvimento deles. Tem até nome!”. Estávamos no telefone, mas me senti abraçada - por ela e pelas milhares de famílias que viviam comigo os tais “terrible two”. E foi mais fácil compreender, acolher e esperar que passasse. 

Quando passa? Não sei. Na semana passada ele começou a subir na grade do berço e, claro, meu pedido para que parasse não valeu de nada. Decidido: vamos transformar o berço em caminha. Ele, com todo direito, não gostou, e eu passei uma noite (quase em claro) lidando com a rejeição dele e arrependida porque não é hora de uma mudança dessas… “Já tá chorando 'sem motivo', imagina agora”… Cochilei de tarde pra recarregar as baterias achando que ia enfrentar outro rojão na segunda noite, mas ele chorou um cadinho só. Dormiu como uma pedra! Acordou, desceu da cama e veio andando até o meu quarto. Sorriu. “Bom dia, mamãe!” Bem mais doce que terrível. 

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