O incrível jogo de multiplicar

 Paula Rivello

Paula Rivello

Eu não acredito que, de fato, você possa ter imaginado o que é a experiência de ter um filho antes de vivê-la. A gente tenta, pensa que pode imaginar, mas os pais, principalmente aqueles que decidem entrar nessa vida nova de cabeça, não fazem ideia do porvir. Não, não fazem. Vivemos, desde a chegada do bebê (e você pode escolher o que entende por chegada) emoções ainda mais incríveis do que se tentou projetar. Mesmo que você tenha gastado anos inteiros no seu exercício de imaginação, a realidade é melhor e mais fantástica do que você pensava. E é também mais custosa. A sensação de que seu descanso não virá nem amanhá, nem semana que vem, e talvez, nem daqui a uns dois anos é algo que só se conhece vivendo. 

Não preciso dizer, portanto, que há dez anos, quando fui dizer “sim” quase que de cara lavada, eu não imaginava onde estaríamos hoje. Passaram-se alguns anos, nós mudamos, mas nada se compara à brutal mudança pela qual passamos há quatro anos. Passamos nós e passam milhares de outros casais - considerando as inúmeras possibilidades e modelos de família que temos por aí. Quando chega uma criança, ainda que pai e mãe estejam devidamente combinados, entram em cena um monte de novos elementos. Estão aqui a minha infância, a infância dele, a minha mãe, a mãe dele, nossos pais, nossos irmãos, nosso imaginário, nossa história. E é justamente quando está todo mundo em cena que cresce a necessidade de estarmos a sós, conectados ao que nos trouxe até aqui, ainda que “o que nos trouxe até aqui” vá mudando, como deve ser, dia após dia. 

A capacidade de continuar junto, no mais profundo sentido da palavra, é testada rotineiramente, nas menores coisas. É testada quando no fim do dia você precisa dar mamadeira pra um, e ele vai brincar com o outro, depois precisa trocar fralda, dar banho, fazer dormir, fazer sossegar na cama pra dormir, fazer dormir de novo, porque o bebê acorda vezes e vezes até que pegue no sono pra valer… Finda a maratona, sobra muito pouco, eu sei. É testada quando as crianças - a escola, a conversa do pediatra, as frases que o menino disse, os planos pro parquinho no fim de semana - viram sua pauta principal, e nem dá tempo de contar como foi o dia no trabalho ou em casa… E ainda mais quando você acha que devia colocar mais blusa no menino e ir logo pra casa, mas ele acha que tá “ótimo assim”... 

Dez anos não são dez dias, e se estamos aqui, mais firmes e mais fortes, é porque na nossa casa não existem laranjas pela metade, nem ninguém buscando se completar em outra pessoa. Nosso jogo é o da multiplicação. Somos um time. O projeto de dar vida e aproveitar ao máximo todas as oportunidades que esses dois meninos nos trazem a cada minuto do nosso dia é nosso, e também é compartilhada a consciência de que, pra isso, é preciso doar - doar tempo, doar fôlego, doar prioridades e expectativas. A doação, ao contrário do que a palavra pode sugerir, não ameaça o amor - ela o fortalece, o revigora, o multiplica.

Não, eu não sabia onde íamos chegar. Mas tivesse eu registrado, há dez anos, como eu gostaria de estar neste momento, provavelmente teria dito “exatamente assim”. E a sensação de acertar em cheio, essa sim, todo mundo pode imaginar. 

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