Mamãe não é mais a mesma

 Ariana Prestes/Stocksnap

Ariana Prestes/Stocksnap

Saí de casa na sexta-feira passada, bem cedo, pra um fim de semana prolongado sem meus filhos. Tudo acertado: eles ficam bem, felizes, e eu vou cuidar das outras (muitas) coisas que me interessam, vou buscar inspiração, vou bater papo, vou trocar abraços gostosos. A primeira sensação clara que tive com relação a isso durante a viagem foi uma alegria indescritível ao perceber que eu ia almoçar sem interrupções, e que eu ia comer a comida quentinha… Logo que servi meu prato avistei na outra mesa uma mulher com duas meninas pequenas, lindas, cada uma com seu pratinho servido, e sorri por dentro. Enquanto eu me deliciava com a panqueca de frango, a moça esticava a mão, cortava bife, tomate e não sei mais o quê, pedia, implorava, tentava sorrir, servia uma garfada daqui, uma colherada dali, catava uns grãos de arroz espalhados em volta dela... Uma perfeita reprodução da minha rotina. 

Mas não demoraram mais que duas horas pra que acontecesse pela primeira vez… Eu estava na estação do metrô, concentrada em acertar o caminho, quando vi um homem andando de costas de mãos dadas com um menino, cabelo lisinho, tênis azul, cotovelo magrinho, capa de herói. Voltei pra janeiro, quando passei uma temporada de metrô com meu menino, e senti saudade no corpo todo. Lembrei da carinha dele tentando entender o nome da estação, do choro quando a gente perdeu a bola, da concentração quando eu pedi pra ele correr, do sorriso quando eu aceitei comprar uma batata naquelas máquinas de filme. Ele foi comigo dentro do metrô.  

Depois, ele e o irmão passearam comigo por longos corredores, fizeram com que eu olhasse pra livros que eu jamais enxergaria sozinha e me ajudaram até a perceber que o melhor lugar pra sentar e fazer hora é na grama, debaixo de um sol gostoso, que eu queria que eles tivessem sentido comigo. Aquela então era eu: livre, desobrigada por 72 horas, interessada como ninguém nessa liberdade, ciente de que cuidar de crianças é apenas uma das minhas tarefas, mas carregando comigo, como sempre será, meu novo olhar. Não tem a ver com distância, com tempo, com foco: tenho agora o olhar que eles trouxeram pra mim, e não é possível mais ver o que está em volta sem sentir no peito o efeito deles.

Lá pelas tantas, sentei pra bater papo com alguns amigos e, embora a conversa estivesse boa, vi minha atenção roubada por um menino, 3 ou 4 anos, que corria com um balão azul em volta de uma pilastra. Fez isso incontáveis vezes, fez sorrindo, tropeçou um pouco, enrolou e desenrolou o fio do balão, quase derrubou uma mesa, e por alguns minutos era pra mim o menino mais lindo do mundo.  

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