Hoje não!

 Shlomit Wolf/Unsplash

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Sei que não estou sozinha: faço parte de uma geração que não mede esforços pra atender a todas as necessidades dos filhos. Existem por aí histórias de todo tipo, mas muitos de nós, especificamente, nos preparamos para recebê-los com “tudo o que têm direito”, incluindo na lista, aliás, um monte de itens cuja necessidade é questionável. Algumas famílias, inclusive, optam por ter menos filhos exatamente com este argumento: dar a ele tudo “do bom e do melhor”. Justo. Muito justo. Tem gente que vai além: repensa suas próprias necessidades na intenção de atender ao filho. O perigo, nesses casos, é quando as necessidades se confundem com as vontades. Algumas famílias, no afã de ver os pequenos felizes, os deixam conduzir a rotina de casa. Tudo pelo sim! Tudo em nome do sorriso, do contentamento. 

Esse esforço independe do poder aquisitivo - com orçamentos e padrões de consumo diferentes, as famílias se assemelham na vontade de prover. Essa semana, envolvido pela novidade do momento na escola, o menino veio nos dizer que quer fazer capoeira. Nada contra a capoeira, pelo contrário, mas decidimos que não. Existe a questão financeira - a capoeira custa! -, mas a razão principal aqui é o exercício, que tomamos o cuidado de praticar de tempo em tempo. Obviamente, diante do não, a primeira reação é a careta, que até tenta se fazer passar por choro. Depois, vem o mais poderoso dos argumentos: 

- “Mas eu quero!”
- “Eu sei que você quer. Mas você também quis o futebol e a música, não quis?”
- “Quis…”
- “Então, amor, é preciso escolher!”

Depois da minha frase, o “eu quero” apareceu mais algumas vezes, e tivemos a rica oportunidade de conversar sobre escolhas, sobre limites, sobre responsabilidades. Claro que a decisão de não se juntar aos colegas da capoeira não é definitiva. Se quiser muito, de fato, ele aprenderá a compensar, e nós estaremos aqui pra lhe comprar uma calça branca. Mas sabemos, tanto eu quanto você, que mais da metade das vontades deles passa tão rápido quanto o por do sol. 

O não pode soar rígido, ríspido ou até desnecessário. Mas, contanto que praticado com carinho e cuidado, traz um pacote de benefícios, que inclui a saúde financeira da família, a chance de reviver e redescobrir alegrias no que já temos em casa - ou na escola - e uma boa oportunidade de se deparar com o limite. A criança tem voz, precisa e deve participar, mas isso implica em entender, também, que, a cada escolha, há que se fazer uma renúncia, não é? Trata-se de uma eficiente medida do que virá por aí. Porque, é claro, ninguém tem tudo o que quer. E quanto antes isso ficar evidente, melhor. 

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