Agora já começou

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Mal os fogos de artifício tinham silenciado, nem bem o relógio tinha marcado dez minutos depois da meia-noite, e o menino correu eufórico e entusiasmado em direção à cozinha pra trocar o calendário. “Pega a escada, anda, traz aqui, deixa que eu tiro esse da parede, anda, mãe!” Tinha vivido a fundo cada um daqueles 365 dias de 2017, tinha acompanhado naquele papel os eventos principais e feito questão de marcar os dias que se passaram, às vezes cheio de disposição pra contar o que havia acontecido de mais emocionante, às vezes impaciente e sem inclinação para conversa. E estava pronto pro ano-novo. A gente já tinha a folhinha nova há alguns dias, mês a mês marcado com fotos da cidade que promete marcar a primeira das grandes aventuras de 2018, mas pra ele é muito mais que isso.

Se eu pedir pra listar o que é que vai acontecer nestes doze meses que se iniciam agora, ele tem tudo na ponta da língua. Escola nova, novos amigos, “eu vou ler um livro inteiro”, judô, merendeira, Rio, Nova York, sete anos, “minhas cartinhas pokémon”. Não é pouca coisa, eu sei. O pequetito não faz a mesma lista, mas sai pulando de excitação se perguntado onde vai estudar agora, e sorri dizendo que vai fazer futebol e completar “quatros anos”. Não fecha a cara nem quando eu alerto para as novidades, “você vai precisar fazer amigos novos, meu amor”, dá de ombros, corre cheio de inocência para se ocupar de mais um brinquedo. Também está pronto pro ano-novo.

E eu? Eu tenho uma lista de possíveis, cotidianas e poderosas razões para uma mulher-dona-de-casa-trabalhadora-mãe-de-dois-meninos-cidadã-brasileira ter andado assim, digamos, meio sem clima, assoberbada e desmotivada em dezembro, desanimada até de responder os doces votos de boas festas que recebeu via whatsapp, mas 2018 anda fazendo (já) milagres. Choveu aqui nesse primeiro dia do ano, e depois da chuva veio o arco-íris. “Mãe, a gente precisa fazer um pedido”, o menino me lembrou e insistiu: “faz o seu”. “Você vai me contar o que você pediu?”, eu arrisquei, e ele me deu a honra: “quero ser o maior mestre pokémon”. Eu ri, ri pra valer, porque eu já ia embarcando na onda poética, e aí ele emendou: “você não sabia que a gente pode pedir o que quiser? Olha lá o que você vai escolher, heim…”

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