Sobre o que não volta mais

Eu vi, ela rolou pelo trilho. Dois segundos antes, a gente ia descendo as escadas, segurando o carrinho do bebê, torto, como não podia deixar de ser, e o menino ia ao lado, mãos dadas com a melhor amiga daquela tarde. Vimos o metrô parado, pensamos no museu que estava a algumas estações, pensamos no relógio, um segundo se passou, e corremos pra embarcar. Embarcamos todos menos a pokebola, que o bebê, dormindo, soltou, e que bateu no pé do papai e foi cair bem no trilho. Onde não dá pra pegar, onde não se pega nada. Nem se for depois, nem se não tiver ninguém olhando. O menino chorou, e chorou muito, por longas estações, como se nada mais valesse no mundo. Depois ouviu, aceitou abraço, andou por todas aquelas ruas lindas, buscou alternativas, pensou em comprar uma nova … E, por dois ou três dias, chorou um pouco mais, aos poucos, sempre que lembrava da pokebola e ficava triste. Tristeza de menino.
 
Não era uma bola qualquer. Era a companhia que ele e o irmão tinham escolhido pra muitos dos passeios das férias. Ela tomou leite com eles, descobriu a cama do hotel, viu filme no avião. Mas era uma bola, como outra qualquer, e rolou. A tristeza dele, genuína que só, doeu em mim, mais uma vez, porque eu não podia voltar no tempo. Não podia sair do metrô e não podia arrumar outra bola naquela hora. Prometi pra depois, e ele argumentou que era daquela que ele gostava, e aí só me restava o carinho. Talvez, no abraço, eu o ajudasse a aguentar firme e ele me ajudasse a lidar com a frustração de não poder resolver tudo pelos meus filhos. Não posso e ponto. Isso é óbvio desde o primeiro minuto de vida, mas a gente demora pra suportar. 

A pokebola não é nossa primeira perda, claro, e sobre algumas eu já falei aqui. Sofremos dores muito maiores, muito mais sérias, nem dá pra comparar. Mas, naquele segundo, quem olhasse pra ele compreenderia. Por dez minutos, talvez, era essa a maior dor do mundo, e não cabia duvidar. O que veio depois, porém, faz parte das lições que uma criança nos oferece, assim, de graça, sem a gente nem precisar pedir. Criança, especialmente quando bem novinha, chora, vive o drama como se não houvesse amanhã, mas aproveita a primeira boa chance que tem pra tocar em frente. Basta um estímulo de leve pra embarcar em outro pensamento, acreditar em outra história, amar de novo e, o que é mais importante, aceitar o que se passou. “Olha, sua bola agora pode morar no metrô e fazer a alegria de outra criança que nunca teve uma pokebola, né?” E ele sorria de leve, se esforçava pra comprar essa versão, como se fosse essa a ideia original. Depois lembrava da tristeza, resmungava, chorava, e tentava se animar de novo, até que deu certo, bem antes do que a gente imaginava. E aí não tem mais rancor, não tem lamentação, não tem autopiedade. 

Já em casa, compramos outra bola, tão igual à primeira quanto possível, e ele quis mostrar pros amigos, enquanto contava o acontecido nas férias. De mão em mão, ela rolou, como rolam as bolas, caiu, quebrou. Sem drama. A dor ficou no metrô. 

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